A dimensão civilizatória da política

Artigo publicado no Diário de Santa Maria

Marcio Medeiros

10/6/20262 min read

A política costuma ser avaliada por sua capacidade de produzir resultados concretos: construir ruas, ampliar serviços, mobilizar recursos, gerar empregos ou melhorar a economia. Essa dimensão instrumental é indispensável, pois decisões públicas afetam diretamente as condições materiais de vida. Reduzir a política a esse critério, contudo, significa ignorar uma de suas funções mais profundas: instituir formas de convivência e ensinar uma sociedade a lidar civilizadamente com seus conflitos.

Ao definir o ser humano como “animal político”, Aristóteles não afirmava apenas que somos sociáveis. Indicava que a vida humana se realiza na pólis, espaço em que os cidadãos deliberam sobre o justo, o injusto e o bem comum. A política, nesse sentido, não é somente uma técnica de governo, mas uma prática de formação coletiva. Por meio dela, aprendemos a expor razões, escutar objeções, negociar interesses e reconhecer que nenhuma sociedade plural subsiste quando cada grupo transforma sua convicção em verdade absoluta.

Isso não significa imaginar uma comunidade sem divergências. O conflito é constitutivo da vida social: interesses, valores e projetos de futuro raramente coincidem. A função civilizatória da política não consiste em eliminar essas diferenças, mas em lhes oferecer linguagem, regras e instituições. Parlamentos, eleições, tribunais e espaços públicos de debate existem para converter antagonismos potencialmente violentos em disputas reguladas. A democracia não promete unanimidade; promete que adversários possam divergir sem se tratarem como inimigos a serem destruídos.

Uma política bem-sucedida reduz a necessidade permanente de coerção, porque ajuda a sedimentar hábitos de respeito, reciprocidade e autocontenção. Isso não levaria ao “fim da política”, pois sempre haverá novos conflitos e decisões coletivas. Levaria, antes, a uma sociedade na qual leis e instituições não funcionem apenas como barreiras externas contra a violência, mas encontrem correspondência em disposições democráticas incorporadas pelos cidadãos.

É por esse critério que também deveríamos avaliar dirigentes, partidos e movimentos: suas intervenções diminuem ou intensificam as tensões sociais? Produzem compreensão dos problemas ou apenas ressentimento? Reconhecem a legitimidade do contraditório ou promovem a desumanização do adversário? Uma liderança pode entregar obras relevantes e, simultaneamente, deteriorar a convivência pública por meio da mentira, da humilhação e da fabricação incessante de inimigos. Seu saldo político não pode ser medido somente em quilômetros de asfalto, cifras orçamentárias ou índices de crescimento.

Nosso debate público, entretanto, permanece excessivamente concentrado nas realizações visíveis da administração. Discutimos obras, arrecadação, investimentos e desempenho econômico — temas incontornáveis —, mas dedicamos pouca atenção aos efeitos morais e relacionais das práticas políticas. Enquanto isso, naturalizam-se a agressividade, a incapacidade de escuta e a certeza dogmática de grupos que não reconhecem qualquer possibilidade de erro em si mesmos.

A democracia exige mais do que resultados administrativos. Exige uma cultura na qual o dissenso não autorize a violência, a convicção não dispense argumentos e a vitória eleitoral não elimine a responsabilidade perante os vencidos. Quando a política abandona essa tarefa, pode até administrar recursos, mas deixa de construir sociedade.

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Professor de sociologia, filosofia e ed. socioemocional