Energia, Moeda e Geoeconomia: os Emirados Árabes Unidos entre o Petrodólar e a Infraestrutura de IA
Análise histórico-institucional do petrodólar como forma de poder estrutural, conectando energia, moeda e reciclagem de excedentes à sustentação financeira e geoeconômica dos EUA. A partir dos Emirados Árabes Unidos, examina-se a transição para um “tecno-petrodólar” que financia infraestrutura de IA, suas fissuras (desdolarização parcial) e os riscos sistêmicos de choques geopolíticos como um fechamento de Ormuz.
Marcio Medeiros
3/4/202619 min read


“Petrodólar” não designa uma nova unidade monetária, mas um arranjo histórico-institucional pelo qual o comércio internacional de petróleo, ao ser predominantemente precificado, faturado e liquidado em dólares, estabiliza uma demanda estrutural por USD e, por extensão, por ativos financeiros norte-americanos. Trata-se menos de uma “preferência espontânea” do mercado e mais de uma cristalização de convenções, infraestruturas de pagamento, garantias de segurança e profundidade financeira que, combinadas, conferem ao dólar a posição de moeda-chave do sistema internacional. Em termos de economia política internacional, esse fenômeno é adequadamente descrito como exercício de poder estrutural: a capacidade de definir as condições de possibilidade do crédito, do risco e da liquidez em escala global (STRANGE, 1988). A energia, nessa leitura, opera como gramática material da hegemonia monetária: ao organizar o acesso ao recurso estratégico central do industrialismo, organiza-se também a necessidade de reservas, a arquitetura do endividamento e a hierarquia das moedas (COHEN, 2015).
A formação do petrodólar se articula ao deslocamento do regime monetário do pós-guerra. O fim da conversibilidade do dólar em ouro, no início dos anos 1970, não extinguiu a centralidade do dólar; antes, exigiu sua reancoragem em mecanismos de demanda que não dependessem da disciplina metálica. A reconstrução dessa âncora ocorreu por meio de pactos político-econômicos e da reorganização dos mercados financeiros, com destaque para o vínculo entre exportadores do Golfo e a absorção, pelo sistema norte-americano, dos excedentes gerados por choques de preços do petróleo. A literatura sobre a persistência do dólar mostra que a “moeda internacional” é, simultaneamente, um fato econômico e um fato institucional: redes de uso, custos de substituição, liquidez e capacidade de ofertar ativos seguros funcionam como forças de inércia que tornam a mudança sistêmica lenta e custosa (EICHENGREEN, 2011; HELLEINER, 2003). A isso se soma uma dimensão política: a moeda hegemônica tende a se sustentar quando o Estado emissor é capaz de projetar garantias (diretas e indiretas) sobre rotas, fluxos e instituições de mercado, reduzindo incertezas sistêmicas e elevando os custos de migração para alternativas.
Reciclagem de excedentes e o “privilégio” financeiro norte-americano
O núcleo operacional do petrodólar é a reciclagem dos excedentes petrolíferos: receitas em USD geradas por exportações energéticas são reinseridas no circuito financeiro global, com forte concentração em ativos denominados em dólar—particularmente títulos do Tesouro, ações e investimentos estratégicos nos Estados Unidos. Esse mecanismo tem efeitos macroestruturais: reforça a liquidez dos mercados norte-americanos, sustenta a demanda por “ativos seguros” e amplia a capacidade dos EUA de financiar déficits externos e fiscais a custos relativamente baixos. É nesse sentido que se fala em “privilégio exorbitante”: a condição singular de emitir a principal moeda internacional e, com isso, captar poupança global em sua própria denominação, transferindo parte do ajuste externo para o resto do sistema (EICHENGREEN, 2011; GOURINCHAS; REY, 2007).
Esse arranjo não deve ser romanticamente interpretado como “equilíbrio funcional”. Ele é tensionado por contradições inerentes ao papel do dólar: a necessidade de prover liquidez internacional frequentemente implica déficits persistentes, o que pode corroer a confiança na moeda emissora—um dilema já identificado na discussão clássica sobre moedas-chave e instabilidades do sistema monetário (TRIFFIN, 1960). O ponto, contudo, é que o petrodólar atuou como amortecedor político-institucional dessa contradição: ao converter o petróleo em fonte recorrente de demanda por USD e ao canalizar excedentes para o mercado de capitais norte-americano, reforçou-se a capacidade de os EUA “rolarem” passivos sem enfrentar, no curto prazo, a disciplina típica imposta a países periféricos.
A partir dos anos 1980, esse circuito se intensifica em um ambiente de financeirização, no qual o sistema financeiro assume centralidade crescente na coordenação do capitalismo contemporâneo. A reciclagem de excedentes petrolíferos passa a alimentar, de modo direto e indireto, a expansão do crédito, a intermediação global e a escalada de ativos, deslocando contradições distributivas e produtivas para o terreno financeiro (KRIPPNER, 2011; GOWAN, 1999). Sob esse prisma, o petrodólar não é apenas uma regra de faturamento; ele integra uma forma histórica de regulação na qual excedentes energéticos são convertidos em poder de portfólio, e o poder de portfólio retroalimenta a centralidade do dólar por meio da profundidade e da liquidez do mercado financeiro dos EUA.
EAU, Golfo e a ancoragem por portfólio: do barril ao balanço
Entre os exportadores do Golfo, os Emirados Árabes Unidos exemplificam a transição do petróleo como fonte de renda para o petróleo como plataforma de acumulação financeira e tecnológica. Não é apenas a magnitude da produção que importa, mas a capacidade de estabilizar oferta, gerir gargalos geoestratégicos e converter excedentes em investimentos de longo prazo com impacto direto sobre a estrutura de financiamento norte-americana. A geografia do Estreito de Ormuz, por onde transita parcela expressiva do petróleo transportado por via marítima, confere ao Golfo uma capacidade estrutural de produzir choques que se transmitem rapidamente a preços, inflação e política monetária em economias centrais. Esse canal é decisivo: variações no preço da energia operam como vetor de conflito distributivo e como condicionante da ação dos bancos centrais, estreitando o campo de possibilidades de política econômica em contextos de risco geopolítico.
A fixação cambial do dirham ao dólar (“peg”) aprofunda a simbiose. Ao manter paridade estável com o USD, os EAU importam, em grande medida, a política monetária norte-americana, o que reduz volatilidade cambial no comércio de energia e reforça a convenção do dólar como unidade de conta e meio de pagamento preferencial nesse mercado. Esse tipo de arranjo pode ser lido como tecnologia institucional de credibilidade: ele diminui incertezas contratuais e, simultaneamente, cria dependência sistêmica em relação ao centro emissor, pois a estabilidade doméstica passa a estar ligada à estabilidade da moeda hegemônica. Em linguagem de hierarquias monetárias, o peg torna a integração ao dólar mais “barata” no curto prazo e mais “custosa” de reverter no longo prazo, porque desloca custos de ajuste e reconfigura expectativas (COHEN, 2015).
O elemento mais expressivo dessa dinâmica é a expansão e sofisticação dos fundos soberanos. Em vez de meramente acumular reservas, o excedente petrolífero se converte em capital estratégico, distribuído entre títulos públicos, participações acionárias, infraestrutura e—crescentemente—setores críticos como semicondutores, energia avançada e inteligência artificial. Essa transformação altera o sentido do petrodólar: de um mecanismo voltado sobretudo à sustentação da dívida pública e à liquidez financeira, ele passa a operar também como vetor de inserção tecnológica, isto é, como ponte entre energia e economia digital. Nessa configuração, os investimentos em mercados e empresas norte-americanas deixam de ser apenas “aplicações” e assumem caráter geoeconômico: alocam excedentes, asseguram acesso a cadeias críticas e reforçam, por vias indiretas, a centralidade do dólar como moeda do financiamento, da inovação e do risco.
Há, aqui, uma reconfiguração do fundamento material da hegemonia. Se o século XX pode ser interpretado como época em que energia fóssil e industrialismo estruturaram a competição interestatal, o século XXI adiciona uma camada em que dados, infraestrutura computacional e cadeias tecnológicas tornam-se elementos de poder. Não se trata de substituição simples do petróleo pela tecnologia, mas de uma sobreposição: o petróleo financia a infraestrutura que sustenta a economia digital; a economia digital, por sua vez, reforça a demanda por ativos do centro e sustenta a capacidade de emitir dívida e absorver excedentes. A permanência do dólar, nesse quadro, depende menos de uma “lei natural” do mercado e mais da capacidade de os EUA preservarem a oferta de ativos líquidos e seguros em escala e de manterem sua centralidade em tecnologias de fronteira (EICHENGREEN, 2011; TOOZE, 2018).
Fissuras contemporâneas: desdolarização parcial e fragmentação dos pagamentos
O fato de o petrodólar ser estrutural não implica que seja imune a fissuras. Uma primeira fissura é a expansão de liquidações bilaterais em moedas locais e o uso de acordos de swap entre bancos centrais, especialmente em transações que buscam reduzir exposição a sanções, custos cambiais e volatilidade associada à política monetária do Fed. Essas práticas podem ser interpretadas como “desdolarização parcial”: diminui-se o uso do USD no pagamento, mas não necessariamente se abandona o dólar como ativo de reserva e como refúgio em momentos de crise. A distinção é crucial, pois a substituição do dólar como meio de pagamento é, em geral, menos exigente do que a substituição do dólar como ativo seguro global; esta última requer mercados profundos, liquidez contínua, arcabouço jurídico confiável e capacidade de absorção de fluxos maciços sem perda de estabilidade—atributos cuja oferta alternativa permanece limitada (COHEN, 2015; EICHENGREEN, 2011).
Uma segunda fissura é a politização crescente das infraestruturas financeiras. O uso de sanções, controles e bloqueios sobre redes de pagamento e de compensação evidencia que a interdependência econômica pode ser “armada”, isto é, convertida em instrumento coercitivo por atores situados em nós centrais das redes (FARRELL; NEWMAN, 2019). Essa dinâmica estimula estratégias de redundância e diversificação: países e blocos buscam rotas alternativas de liquidação, acordos regionais e mecanismos próprios de compensação. Ainda assim, a fragmentação tende a ser incompleta: redes financeiras exibem fortes efeitos de escala, e a moeda hegemônica se beneficia de retornos crescentes do uso—quanto mais se usa, mais conveniente se torna continuar usando (HELLEINER, 2003; COHEN, 2015). O resultado provável, portanto, não é um “colapso” súbito do petrodólar, mas uma paisagem mais heterogênea: maior variedade de meios de pagamento e maior competição monetária periférica, coexistindo com a persistência do dólar como centro de gravidade do sistema.
Há também uma mudança relevante na correlação entre petróleo e dólar. A relação inversa—dólar forte, petróleo relativamente mais fraco—não desaparece como tendência histórica, mas pode se alterar em períodos de choque geopolítico e restrição de oferta, quando o prêmio de risco eleva o preço do petróleo ao mesmo tempo em que o dólar se fortalece como porto seguro. O que isso indica, analiticamente, é a presença de “crises compostas”, nas quais energia, segurança e finanças deixam de ser esferas separadas e passam a se reforçar mutuamente, produzindo co-movimentos que desafiam heurísticas tradicionais (TOOZE, 2018). Nesses episódios, o petrodólar não é apenas convenção monetária: ele funciona como canal de transmissão de instabilidades, convertendo geopolítica em inflação, inflação em juros, juros em fluxos de capital e fluxos em reforço do dólar.
Cenário de um conflito prolongado com o Irã
Num cenário hipotético em que um conflito aberto contra o Irã resulte no fechamento prolongado do Estreito de Ormuz, o petrodólar deixaria de operar predominantemente como convenção “silenciosa” de liquidação e reciclagem e passaria a funcionar como dispositivo de crise: um mecanismo de transmissão rápida entre segurança, energia, inflação e finanças. A primeira consequência seria a compressão física do fluxo: uma parcela decisiva do comércio marítimo de petróleo e derivados ficaria temporariamente impossibilitada, produzindo choque de oferta com elevada inelasticidade de curto prazo. A literatura macroeconômica sobre choques do petróleo é inequívoca em um ponto: quando a perturbação é majoritariamente de oferta e acompanhada de incerteza geopolítica, os efeitos típicos combinam inflação mais alta, deterioração de termos de troca para importadores líquidos, queda do produto e aumento da volatilidade financeira, ainda que a magnitude dependa do regime monetário e da estrutura energética de cada economia (HAMILTON, 2003; KILIAN, 2008). No agregado global, o choque tenderia a reativar dinâmicas “estagflacionárias” — com diferenças importantes em relação aos anos 1970, mas com um denominador comum: energia cara funciona como encarecimento sistêmico da reprodução social e produtiva, redistribuindo renda e comprimindo demanda efetiva (BLANCHARD; GALÍ, 2007).
A lógica do petrodólar, no curtíssimo prazo, seria paradoxalmente reforçada e, ao mesmo tempo, tensionada. Reforçada porque, com o petróleo ainda majoritariamente precificado em USD, a elevação abrupta do preço nominal elevaria a necessidade de dólares para importadores energéticos, ampliando a demanda transacional por USD e, em momentos de pânico, a procura por ativos líquidos denominados na moeda hegemônica. Isso é coerente com a persistência do dólar como “ativo seguro” e com a tendência, em crises sistêmicas, de flight to safety para Treasuries e instrumentos dolarizados, dado o papel dos EUA como provedor central de liquidez e de ativos de referência (EICHENGREEN, 2011; CABALLERO; FARHI; GOURINCHAS, 2017). Contudo, seria tensionada porque a mesma elevação de preços energéticos, ao pressionar inflação e expectativas, poderia impor ao Federal Reserve o dilema de escolher entre estabilização de preços e sustentação do nível de atividade, agravando a volatilidade do ciclo e elevando custos de financiamento globais via “ciclo financeiro internacional” — mecanismo pelo qual condições monetárias e financeiras dos EUA se propagam para o resto do mundo, reduzindo a autonomia efetiva de outras economias (REY, 2015; TOOZE, 2018). Em outras palavras: o petrodólar tenderia a intensificar seu duplo efeito de hegemonia e risco, pois, em crise, ele concentra liquidez no centro enquanto exporta aperto financeiro para a periferia.
Para os Estados Unidos, o choque produziria um efeito de composição. Como economia importadora líquida (ainda que com produção doméstica elevada), os EUA enfrentariam pressões inflacionárias via combustíveis, logística e fertilizantes, com impactos distributivos regressivos e deterioração de confiança do consumidor. Ao mesmo tempo, a demanda global por dólares poderia apreciar a moeda, o que reduz parte da inflação via importados, mas também comprime competitividade externa e pode reforçar assimetrias globais. A consequência política-institucional seria uma intensificação do “poder estrutural” do dólar — não como conforto macroeconômico interno, mas como capacidade do Estado emissor de atrair poupança global em meio ao pânico (STRANGE, 1988; COHEN, 2015). Esse é o núcleo duro do petrodólar em crise: a moeda hegemônica se fortalece financeiramente mesmo quando o choque real deteriora o bem-estar e aumenta a probabilidade de recessão.
No Oriente Médio, um fechamento prolongado de Ormuz produziria um segundo paradoxo: haveria um choque de preço (windfall) potencial para produtores, mas simultaneamente um choque de quantidade (constraint) severo para a realização das exportações. A reciclagem de excedentes — eixo clássico do petrodólar — depende de excedente efetivamente realizado e liquidado; se o gargalo impede volumes, parte do ganho de preço é neutralizada por perda de receita e por custos de guerra/segurança. Ainda assim, os produtores que conseguissem escoar por rotas alternativas ou por estoques poderiam acumular USD em escala, e a alocação desses recursos se tornaria abertamente estratégica: investimentos e compras de títulos passariam a refletir, com maior intensidade, alinhamentos de segurança e expectativas sobre a estabilidade do regime internacional. Em termos práticos, a reciclagem seria menos “automática” e mais condicionada por risco soberano, garantias militares e barganhas tecnológicas, elevando a politização do portfólio.
É precisamente nesse ponto que a crise poderia acelerar fissuras estruturais. Quando as infraestruturas financeiras e energéticas se tornam objetos de coerção e vulnerabilidade, intensifica-se o incentivo a redundâncias: contratos bilaterais, swaps, liquidação em moedas locais e arranjos regionais de compensação podem crescer, não necessariamente por “eficiência”, mas por gestão de risco político. A noção de interdependência “armada” descreve esse movimento: redes globais que antes eram apenas canais de eficiência passam a ser percebidas como alavancas de coerção, estimulando estratégias de descentramento parcial (FARRELL; NEWMAN, 2019). Assim, embora o dólar possa se fortalecer no auge da crise como refúgio, o episódio pode semear, no médio prazo, maior fragmentação de pagamentos e maior pluralização monetária em setores específicos — sobretudo quando atores relevantes buscam reduzir exposição a interrupções, sanções e bloqueios.
A consequência mais importante para a economia global seria a rehierarquização do risco. Com Ormuz fechado por tempo prolongado, a energia deixaria de ser apenas um “preço” e voltaria a ser um problema de disponibilidade material, deslocando a política econômica para um terreno de racionamento implícito: cadeias logísticas, agricultura, indústria e transportes ajustariam quantidades e margens. Economias europeias e asiáticas mais dependentes de importação tenderiam a sofrer choque mais agudo; economias emergentes enfrentariam deterioração do balanço de pagamentos e pressão cambial, intensificando a assimetria típica de um sistema em que a moeda do centro se valoriza enquanto os custos reais do choque se distribuem de forma desigual (GOURINCHAS; REY, 2007; REY, 2015). Nesse ambiente, o petrodólar operaria como amplificador da desigualdade sistêmica: ele concentra liquidez no centro e impõe, à periferia, o ajuste via câmbio, juros e contração.
Por fim, haveria um efeito de longo prazo sobre a própria arquitetura do petrodólar: crises dessa natureza tendem a acelerar transições tecnológicas e institucionais. A incerteza extrema sobre rotas fósseis pode precipitar políticas industriais e energéticas mais agressivas (diversificação de fontes, eletrificação, substituição tecnológica), reorientando investimentos e reduzindo, gradualmente, o peso do petróleo como eixo do comércio mundial. Nesse caso, a hegemonia do dólar não desaparece automaticamente; ela se desloca de base, buscando recompor-se como moeda das cadeias tecnológicas e dos “ativos seguros” — movimento compatível com a ideia de que moedas hegemônicas persistem quando conseguem se reancorar em novos objetos estratégicos, não quando insistem em um único fundamento material (COHEN, 2015; EICHENGREEN, 2011). Em síntese, um fechamento prolongado de Ormuz tenderia a produzir, simultaneamente, fortalecimento conjuntural do dólar e corrosão estratégica das condições de universalidade do sistema: mais dólar no pico da crise, mais incentivos à fragmentação e à transição no pós-crise.
Ormuz, choque sistêmico e o “tecno-petrodólar” emiradense: finanças de IA sob estresse geopolítico
Num cenário de fechamento prolongado do Estreito de Ormuz, os Emirados Árabes Unidos seriam atingidos por uma perturbação que não se limita ao volume físico de exportações; ela reconfigura, simultaneamente, risco soberano, fluxo de receitas, custo de seguro e logística, e o próprio regime de previsibilidade que sustenta estratégias de investimento de longo prazo. Do ponto de vista estritamente energético, Ormuz concentra um volume de trânsito marítimo de petróleo e líquidos cuja interrupção tende a produzir choques globais de oferta, com elevação abrupta de preços e efeitos macroeconômicos típicos de estagflação, isto é, pressão inflacionária combinada a arrefecimento do produto (HAMILTON, 2003; KILIAN, 2008). Na arquitetura específica do Golfo, porém, importa um detalhe institucional-material: apenas Arábia Saudita e EAU dispõem de oleodutos operacionais capazes de contornar Ormuz, sendo que a infraestrutura emiradense conecta campos onshore ao terminal de Fujairah (Golfo de Omã) com capacidade aproximada de 1,5 milhão de barris/dia, enquanto a capacidade efetiva “ociosa” potencial para bypass (somando os sistemas saudita e emiradense) é limitada diante do volume total que transita pelo estreito. . Isso significa que, mesmo com mecanismos de resiliência parcial, uma interrupção prolongada implicaria (i) perda de receitas pela impossibilidade de escoamento pleno, (ii) maior volatilidade fiscal e (iii) aumento do risco-país percebido por investidores e parceiros.
É precisamente nesse ponto que a questão do financiamento de “big techs” e da infraestrutura de IA pelos EAU—via fundos soberanos, veículos de investimento e acordos estratégicos—ganha densidade analítica. A aposta emiradense em IA não opera como simples “diversificação”; ela se inscreve numa lógica de capitalismo de Estado em que fundos soberanos funcionam como dispositivos de política industrial externa, combinando retorno financeiro, acesso tecnológico e inserção em cadeias críticas (BAHOO; ALON; PALTRINIERI, 2020). Em termos práticos, isso se materializa em acordos verificáveis que conectam capital emiradense e ecossistema tecnológico ocidental, sobretudo norte-americano. Em abril de 2024, a Microsoft anunciou investimento estratégico de US$ 1,5 bilhão na G42 (Abu Dhabi), prevendo cooperação em IA e nuvem e uma moldura de garantias intergovernamentais (“Intergovernmental Assurance Agreement”) associada a exigências de segurança e conformidade regulatória. (MICROSOFT, 2024). . Em setembro de 2024, BlackRock, Global Infrastructure Partners, Microsoft e MGX (veículo de Abu Dhabi voltado a IA e tecnologias avançadas) lançaram uma parceria de infraestrutura para investir em data centers e energia associada, com objetivo declarado de mobilizar dezenas de bilhões em capital (e potencialmente mais quando combinada a dívida), indicando um eixo no qual o “petrodólar reciclado” passa a financiar diretamente o substrato físico da economia algorítmica. (BLACKROCK, 2024; MICROSOFT, 2024). . Em maio de 2025, OpenAI e parceiros (G42, Oracle, NVIDIA, Cisco e SoftBank) anunciaram o “Stargate UAE”, um cluster de computação de 1 gigawatt inserido num “UAE–U.S. AI Campus” de 5 gigawatts, com a particularidade institucional de ser construído pela G42 e operado por OpenAI e Oracle. (OPENAI, 2025; G42, 2025; SOFTBANK, 2025). . Em novembro de 2025, o Departamento de Comércio dos EUA informou ter autorizado exportações de semicondutores avançados para a G42 (até o equivalente de 35.000 chips NVIDIA Blackwell/GB300), explicitando que a inserção emiradense na fronteira de IA é mediada por regimes de controle tecnológico e por uma gramática de “parcerias confiáveis”. (U.S. DEPARTMENT OF COMMERCE, 2025).
A hipótese de crise em Ormuz afeta esse arranjo por três canais principais, que se reforçam mutuamente.
O primeiro é o canal fiscal-financeiro: uma interrupção prolongada reduz receitas correntes (ou as torna erráticas) e eleva a prioridade de liquidez e proteção patrimonial. Ainda que fundos soberanos existam precisamente para amortecer volatilidade e operar com horizontes longos, a literatura mostra que, em contextos de estresse, a propensão a deslocar carteiras para ativos seguros e líquidos tende a aumentar, em detrimento de alocações mais ilíquidas e intensivas em capital (como infraestrutura e “compute”). Essa tensão não invalida projetos de IA já em curso, mas pode atrasar escalonamentos, renegociar cronogramas e reprecificar risco político—sobretudo quando o choque afeta também o custo de energia e a estabilidade logística global (CABALLERO; FARHI; GOURINCHAS, 2017; TOOZE, 2018). Há, aqui, um paradoxo: o fechamento de Ormuz pode elevar o preço do petróleo e, portanto, o valor unitário das exportações que conseguem sair; mas a restrição de volume e a elevação do risco de transporte podem reduzir a realização efetiva dessas receitas e aumentar a preferência por posições defensivas.
O segundo é o canal infraestrutural-energético da IA. A governança contemporânea da IA é, em larga medida, governança de “compute”: data centers, chips e energia. A literatura recente sobre soberania computacional indica que políticas de atração de data centers ampliam segurança de suprimento de capacidade computacional, mas impõem trade-offs severos de energia, água, território e dependência de fornecedores estrangeiros de aceleradores (HAWKINS; LEHDONVIRTA; WU, 2025). Num choque energético global (como o produzido por Ormuz), os custos do insumo “energia” sobem e a competição por eletricidade firme se intensifica, o que tende a elevar o custo total de propriedade de infraestrutura de IA e a aumentar a sensibilidade política dos projetos. Nesse sentido, a mesma estratégia emiradense de tornar-se hub de IA—ancorada em capital soberano e projetos de escala—pode sofrer pressão pela necessidade de garantir energia estável, cadeias de suprimento resilientes e segurança física ampliada em cenário de conflito regional.
O terceiro canal é geopolítico-regulatório: em crise, a interdependência tende a se “armar”. A ampliação de controles de exportação e de requisitos de segurança (como se observa no caso de semicondutores avançados e nas molduras de garantia associadas a parcerias) reforça a ideia de que o acesso à fronteira tecnológica não é um simples produto de mercado, mas resultado de alinhamentos e confiança institucional (FARRELL; NEWMAN, 2019). Em contexto de guerra regional e fechamento prolongado do estreito, a pressão política doméstica nos EUA pode favorecer maior condicionalidade (compliance, governança, “trusted AI”), e isso afeta diretamente o modelo emiradense de financiar e operar “compute” de última geração em parceria com big techs. A autorização formal de exportações avançadas, por exemplo, evidencia simultaneamente integração e vulnerabilidade: integra porque abre acesso a hardware crítico; vulnerabiliza porque a continuidade depende de decisões regulatórias que podem se tornar mais restritivas em ambientes de escalada (U.S. DEPARTMENT OF COMMERCE, 2025). .
O resultado conceitual é que uma crise prolongada em Ormuz não apenas “ameaça receitas do petróleo”; ela testa a mutação contemporânea do petrodólar para um regime híbrido em que excedentes soberanos se convertem em infraestrutura e alianças tecnológicas—um “tecno-petrodólar” cuja estabilidade depende de (i) fluxo energético realizável, (ii) capacidade de absorver risco sem liquidação defensiva excessiva e (iii) manutenção de portas regulatórias abertas para semicondutores, nuvem e parcerias. Para os EAU, o desafio não é abandonar a estratégia de IA, mas sustentá-la sob condições de maior risco sistêmico, no qual a própria geografia (Ormuz) volta a impor limites materiais ao projeto de financiar a economia algorítmica global.
Referências
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