Entre a medicalização do sofrimento e a romantização da dor

Artigo de opinião

Marcio Medeiros

4/14/20265 min read

O debate contemporâneo sobre saúde mental tem sido, com frequência, capturado por posições extremadas. De um lado, aparece a expectativa de que todo mal-estar humano deva ser rapidamente neutralizado por recursos farmacológicos. De outro, difunde-se a ideia de que recorrer à medicação seria sempre uma forma de fraqueza, como se sofrer fosse, por si só, sinal de autenticidade, profundidade ou virtude. Ambas as posições empobrecem a compreensão do sofrimento psíquico, pois substituem o discernimento clínico por slogans morais. A crítica séria da medicalização não autoriza a negação do tratamento, do mesmo modo, a defesa do tratamento não legitima a patologização indiscriminada da vida ordinária (CONRAD, 2007; FRANCES, 2013; DEGRAVE; SILVA, 2025).

É importante observar, com rigor metodológico, que “medicalização excessiva” não é um fenômeno medido por um único indicador universal. A literatura costuma abordá-lo por marcadores indiretos, como expansão diagnóstica, aumento sustentado de prescrições, uso prolongado de psicofármacos além do recomendado e individualização biomédica de sofrimentos fortemente atravessados por fatores sociais e culturais. No Brasil, uma revisão sistemática com metanálise estimou em 4,0% a prevalência global de uso de antidepressivos, com maior frequência entre mulheres e aumento com a idade. Esse dado, isoladamente, não prova excesso, ele apenas mostra a relevância social do fenômeno e a necessidade de critérios clínicos claros, monitoramento e prudência na prescrição (TIGUMAN et al., 2024).

A preocupação com o sobretratamento não é infundada. No caso dos benzodiazepínicos, por exemplo, documentos internacionais convergem em não recomendá-los como tratamento rotineiro para transtornos de ansiedade, sobretudo por seu potencial de dependência e por sua limitada efetividade no longo prazo, quando utilizados, a recomendação predominante é restrição ao curto prazo, frequentemente por menos de quatro semanas. Em paralelo, revisões internacionais mostram que diretrizes de prescrição e desprescrição tendem a ser concordantes quanto à necessidade de limitar duração, evitar uso rotineiro como primeira linha e realizar retirada gradual quando indicado (BRANDT et al., 2024; OMS, 2025).

O erro oposto, porém, é igualmente danoso. Transformar a recusa aos medicamentos em princípio moral absoluto produz uma verdadeira fetichização do sofrimento. Nem toda dor psíquica é sinal de doença, contudo, também não é verdade que toda dor deva ser suportada sem intervenção biológica. Diretrizes contemporâneas são mais sóbrias: antidepressivos não são necessários para depressão leve, mas podem ter papel relevante em quadros moderados e graves, especialmente quando articulados a psicoterapia, preferências do paciente e avaliação clínica individualizada. A boa prática, portanto, não consiste em medicar sempre, nem em nunca medicar, mas em decidir com proporcionalidade, evidência e responsabilidade (OMS, 2025; NICE, 2022).

Quando a medicação é clinicamente indicada, sua recusa indiscriminada ou sua interrupção inadequada pode ter custo elevado. No ensaio ANTLER, pacientes da atenção primária que descontinuaram antidepressivos após uso prolongado apresentaram recaída em 56% dos casos ao longo de 52 semanas, contra 39% entre aqueles que mantiveram o tratamento. No campo das psicoses, metanálises mostram que maior duração de psicose não tratada se associa a piores desfechos de longo prazo, especialmente em sintomas positivos, recaídas e tempo até remissão. Revisões sobre depressão também indicam que reconhecimento e tratamento precoces tendem a melhorar o prognóstico, ao passo que a duração da depressão não tratada se relaciona a piores resultados (LEWIS et al., 2021; PENTTILÄ et al., 2014; KRAUS et al., 2019).

Isso é particularmente importante porque o sofrimento psíquico clinicamente relevante não é romantizável: ele compromete vínculos, trabalho, estudo, funcionalidade e, em casos graves, pode associar-se ao suicídio. A Organização Mundial da Saúde observa, ademais, uma lacuna importante de cuidado: em países de alta renda, apenas cerca de um terço das pessoas com depressão recebe tratamento. Em escala mais ampla, mais de 75% das pessoas com transtornos mentais, neurológicos e por uso de substâncias permanecem sem o cuidado de que necessitam. O debate público, por isso, deveria afastar-se do moralismo abstrato e aproximar-se de uma ética do cuidado proporcional: aliviar o sofrimento quando necessário, sem converter toda tristeza em patologia e sem transformar toda medicação em tabu (OMS, 2023; OMS, 2025).

Em experiências como o luto, a depressão e outros quadros de sofrimento psíquico, o que se exige não é adesão a palavras de ordem, mas discernimento. O luto não deve ser automaticamente patologizado, ao mesmo tempo, a mera existência de uma dor legítima não elimina a possibilidade de agravamentos, complicações ou episódios depressivos que requeiram intervenção clínica. O papel do bom profissional é precisamente distinguir a experiência humana esperável, o sofrimento que pede escuta e o sofrimento que, além da escuta, demanda recursos terapêuticos adicionais. Tratar com moderação não é negar a dor, é recusar tanto sua supressão apressada quanto sua sacralização.

Referências bibliográficas

BRANDT, Jaden et al. Prescribing and deprescribing guidance for benzodiazepine and benzodiazepine receptor agonist use in adults with depression, anxiety, and insomnia: an international scoping review. EClinicalMedicine, v. 70, 102507, 2024. DOI: 10.1016/j.eclinm.2024.102507.

CONRAD, Peter. The medicalization of society: on the transformation of human conditions into treatable disorders. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2007.

DEGRAVE, Aline; SILVA, Paulo Roberto Fagundes da. A medicalização do sofrimento e o sobrediagnóstico da depressão. Saúde em Debate, v. 49, n. 145, e9667, 2025. DOI: 10.1590/2358-289820251459667P.

FRANCES, Allen. Saving normal: an insider’s revolt against out-of-control psychiatric diagnosis, DSM-5, big pharma, and the medicalization of ordinary life. New York: William Morrow, 2013.

KRAUS, Christoph; KADRIU, Bashkim; LANZENBERGER, Rupert; ZARATE JR., Carlos A.; KASPER, Siegfried. Prognosis and improved outcomes in major depression: a review. Translational Psychiatry, v. 9, 127, 2019. DOI: 10.1038/s41398-019-0460-3.

LEWIS, Glyn et al. Maintenance or discontinuation of antidepressants in primary care. The New England Journal of Medicine, v. 385, n. 14, p. 1257-1267, 2021. DOI: 10.1056/NEJMoa2106356.

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PENTTILÄ, Matti et al. Duration of untreated psychosis as predictor of long-term outcome in schizophrenia: systematic review and meta-analysis. The British Journal of Psychiatry, v. 205, n. 2, p. 88-94, 2014. DOI: 10.1192/bjp.bp.113.127753.

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