Entre a retórica democrática e a realpolitik energética

Artigo de opinião

Marcio Medeiros

3/4/20263 min read

Estamos diante de uma inflexão histórica pouco comum: a reabilitação, em plena contemporaneidade, da guerra e da intervenção direta como instrumentos ordinários de política internacional. Longe de se tratar de “anomalias” pontuais, assiste-se à consolidação de teatros bélicos múltiplos, com destaque para o eixo euro-oriental (a guerra na Ucrânia) e para a longa faixa de instabilidade que atravessa o Oriente Médio e parte do continente africano. Os dados corroboram essa impressão: o Uppsala Conflict Data Program registrou, em 2024, 61 conflitos estatais ativos, dos quais 11 atingiram o patamar de “guerra”.

Nesse contexto, convém desconfiar da gramática moralizante que costuma justificar operações militares sob o signo da “democracia” ou da “liberdade”. A política externa raramente se move por ideais em estado puro; ela se estrutura, antes, pela lógica da razão de Estado e pela competição sistêmica por poder e segurança — como descreve o realismo clássico e neorrealista. Se a democracia fosse, de fato, o critério determinante, seria difícil explicar a robustez e a longevidade de alianças com regimes reconhecidamente não livres, como evidenciam as avaliações internacionais sobre os Emirados Árabes Unidos, somadas ao histórico explícito de cooperação securitária e militar entre EUA e monarquias do Golfo. (Freedom House, 2024; U.S. Department of State, 2024).

A energia — e, em particular, o petróleo — permanece como um dos nervos centrais dessa dinâmica: não apenas como mercadoria, mas como vetor de coerção, barganha e reposicionamento geopolítico. A oscilação entre sanções, flexibilizações e “exceções” regulatórias revela um pragmatismo que subordina o discurso normativo a cálculos de custo-benefício. O caso venezuelano é exemplar. Em diferentes momentos, o regime sancionatório foi ajustado para viabilizar fluxos específicos de petróleo — como se observa, por exemplo, nas autorizações que permitiram a retomada de exportações vinculadas a operações da Chevron. A dimensão instrumental do tema foi verbalizada de modo particularmente explícito por Donald Trump: em 2023, afirmou que teria “tomado” a Venezuela e “pegado todo o petróleo” caso tivesse sido reeleito. (CNN Brasil, 2023). Em 3 de janeiro de 2026, após a operação militar que capturou Nicolás Maduro, Trump declarou, em coletiva, que os EUA “administrariam” temporariamente o país, reconstruiriam a infraestrutura petrolífera e que empresas norte-americanas passariam a explorar e comercializar as reservas — admitindo, inclusive, a possibilidade de presença militar no terreno para garantir a “gestão” do processo. (ABC News, 2026). Ao mesmo tempo, a própria literatura especializada tem advertido que “decapitação” de liderança não equivale, automaticamente, a transformação do regime: a continuidade de segmentos centrais do aparato estatal e coercitivo — agora sob a presidência interina de Delcy Rodríguez — sugere que o eixo decisivo não é uma súbita democratização interna, mas a reconfiguração externa de alinhamentos e do circuito do petróleo. (AP News, 2026; RAND, 2026).

A pressão sobre o Irã — por meios militares, econômicos e diplomáticos — deve ser compreendida na mesma moldura: trata-se menos de uma cruzada moral e mais de uma disputa por arquiteturas de influência, rotas, alianças e controle indireto de insumos estratégicos, em um cenário de competição ampliada entre polos de poder. O ponto crucial não reside, portanto, apenas na relação entre governantes e governados, mas na posição que certos Estados ocupam na economia política internacional: alguns se mostram negociáveis; outros, quando afirmam autonomia geoestratégica e se aproximam de eixos rivais, tornam-se alvos preferenciais de contenção e constrangimento.

Ainda assim, é crucial notar que tal coerção encontra contrapesos. A China, precisamente por reconhecer sua vulnerabilidade estrutural à matriz fóssil e aos gargalos geopolíticos do petróleo, vem direcionando parcela maciça de seus investimentos energéticos para tecnologias de baixa emissão — movimento que pode ser lido como estratégia de redução de dependências e de amortecimento de pressões externas.

O que se desenha, portanto, é uma atualização da Guerra Fria: não a repetição mecânica do passado, mas a recomposição de antagonismos estratégicos em um ambiente multipolar, tecnologicamente mais denso e potencialmente mais volátil. E seus efeitos não são abstratos. Para sociedades periféricas e semiperiféricas, a instabilidade do preço do petróleo e de seus derivados tende a se traduzir em encarecimento de combustíveis, fretes e insumos agrícolas — entre eles fertilizantes direta ou indiretamente associados à cadeia fóssil — com impactos regressivos sobre o custo de vida. Diante disso, o debate público precisa abandonar a ingenuidade moral e encarar o essencial: em grande medida, não se trata de “povos contra povos”, mas de interesses globais operando sobre territórios, recursos e corredores estratégicos, frequentemente à revelia das populações que arcam com o custo da história.