Entre Telas e Presença
Artigo publicado no jornal Diário de Santa Maria no dia 16/12/2025
Marcio Medeiros
12/18/20252 min read


Neste período do ano, intensificam-se as viagens, as visitas a familiares, as idas à praia e a outros destinos que favorecem a produção de inúmeras fotografias. Não é incomum que indivíduos exibam suas formas corporais, cultivadas ao longo dos meses anteriores, para compor postagens nas redes sociais acompanhadas de frases de efeito e filtros que realçam o resultado obtido. Publicar imagens, por si só, não constitui um problema. A dificuldade emerge quando tais postagens transformam-se em um dispositivo de validação: nesse caso, o sujeito não está propriamente vivendo sua experiência, mas convertendo a vivência em espetáculo, orientando-a para um público imaginado, na expectativa de aprovação mediante “likes” e comentários. Tal dinâmica desloca o sentido do presente e transfere a expectativa de satisfação para um momento posterior — o pós-publicação —, quando então se aguarda a resposta da audiência virtual.
Há também o efeito inverso: o impacto sobre aqueles que percorrem as redes para observar a vida alheia e produzir comparações. Ao confrontar-se com existências aparentemente mais excitantes, viagens idealizadas e estilos de vida distantes, muitos experimentam sentimentos de insuficiência, frustração, raiva ou inveja. Nesses casos, as redes sociais funcionam como amplificadores de afetos negativos, cuja contribuição para o bem-estar é mínima ou inexistente.
Por isso, nesta época do ano, torna-se fundamental cultivar certa disciplina afetiva: desfrutar o descanso atento ao que se apresenta ao redor, evitando projetar a felicidade na validação externa e abstendo-se de comparações com a vida do outro. Reconhecer o que há de bom e fecundo em nossa própria existência é condição decisiva para qualquer experiência sustentável de bem-estar. Nesse sentido, o conceito de amor fati mostra-se especialmente pertinente: trata-se de aceitar o presente tal como ele é, e não como desejaríamos que fosse. Aceitação não implica idealização; significa admitir que, apesar dos problemas que atravessamos, há também alegrias, relações significativas e a possibilidade – ainda que limitada – de gerir a própria existência de modo a torná-la a mais satisfatória possível.
Trata-se, evidentemente, de uma tarefa exigente. Contudo, a imersão contínua nas redes sociais raramente contribui para tal processo; ao contrário, costuma obscurecer a experiência imediata. Viver o presente com atenção integral, relacionar-se com as pessoas de modo pleno e consciente e investir na construção de momentos significativos permanece, de maneira inequívoca, uma via mais fecunda do que permanecer enclausurado nos dispositivos digitais. Se almejamos vivências mais prazerosas, é necessário — ao menos como exercício mínimo — criar distâncias periódicas das redes sociais.