História em Cinzas

Artigo Publicado no Diario SM em 13/01/2026

Marcio F S Medeiros

1/18/20263 min read

O final de ano em Santa Maria foi atravessado pela notícia dolorosa do incêndio que atingiu o Colégio Marista. Mais do que uma instituição de ensino amplamente reconhecida, trata-se de um colégio com mais de um século de existência, profundamente enraizado na história da cidade. É a partir desse episódio que se impõe uma reflexão mais ampla sobre a importância da história na constituição de uma comunidade urbana.

Os elementos históricos não são meros adornos do espaço urbano. Eles operam como dispositivos simbólicos de pertencimento, articulando memória, identidade e continuidade. Conhecer a história de um lugar significa reconhecer os processos que o constituíram, as transformações que o atravessaram e os sentidos compartilhados que nele se sedimentaram. Trata-se de um exercício de vinculação afetiva e simbólica. Santa Maria, contudo, historicamente explora pouco esse patrimônio. Como professor, após ter acompanhado milhares de alunos ao longo dos anos, é recorrente a constatação da fragilidade do conhecimento sobre a história local e, como consequência direta, da ausência de um sentimento consistente de pertencimento.

Nesse contexto, o projeto de vida de muitos jovens acaba sendo orientado por uma lógica de saída: cursar o ensino superior e partir. Santa Maria consolida-se, assim, como um dos maiores polos de exportação de capital intelectual do país, ao mesmo tempo em que apresenta baixíssimos índices de retenção desses mesmos cérebros. Tal dinâmica não é apenas econômica; ela é simbólica e cultural, revelando uma cidade que pouco investe na construção de vínculos duradouros com seus habitantes.

A tragédia que atingiu o Colégio Marista soma-se, portanto, a uma tragédia mais ampla da cidade. A história local é sistematicamente negligenciada ou destruída — seja pelo fogo, pelo tempo, pela omissão ou pela ausência de políticas públicas efetivas de preservação. Em diversos debates com lideranças locais, torna-se evidente uma concepção reducionista segundo a qual o “velho” é sinônimo de atraso, enquanto o potencial de lucro imediato ocupa o centro das decisões. O que se perde nessa lógica é a compreensão do papel humanizador da história, justamente por meio do sentimento de pertencimento que ela é capaz de produzir.

Pertencer a um lugar é estabelecer conexões. Mas como construir vínculos com um espaço que não oferece condições simbólicas e materiais para acolher seus sujeitos? Essa realidade, contudo, não é inexorável. Há múltiplas possibilidades de reversão. Caberia, por exemplo, reconhecer e fortalecer os movimentos sociais voltados à valorização da cultura e da história local, conferir-lhes visibilidade pública e incorporá-los de maneira orgânica às dinâmicas escolares. Trata-se de compreender a escola como espaço privilegiado de mediação entre memória coletiva e formação cidadã.

De igual modo, também recai sobre o indivíduo uma dimensão ativa desse processo. Aquele que chega à cidade pode buscar conhecer sua história, frequentar seus espaços históricos, percorrer suas ruas, museus e marcos simbólicos, bem como dialogar com moradores mais antigos, depositários de uma memória viva que não se encontra nos arquivos formais. Há, portanto, um vasto campo de possibilidades concretas para a construção de pertencimento, desde que exista disposição política, institucional e subjetiva para tal.

É provável que essas reflexões ressoem de modo particular entre aqueles que estudaram no Colégio Marista. O fogo não consumiu apenas um edifício. Consumiu memórias, fragmentou vínculos, atingiu um símbolo de pertencimento e destruiu uma parcela da história compartilhada entre a instituição e a cidade. Quando um patrimônio histórico se perde, não é apenas a matéria que se dissolve; é uma dimensão coletiva da memória urbana que se rompe. E, diante disso, todos aqueles que mantêm algum laço com a cidade sofrem conjuntamente.