Masculinidade em Transição: identidade, violência e igualdade de gênero na sociedade contemporânea
Artigo de opinião
Marcio Medeiros
4/27/20268 min read


A pergunta “estamos vivendo uma crise de masculinidade?” exige cautela conceitual. A expressão “crise” pode sugerir que haveria uma essência masculina natural em colapso, quando, em termos sociológicos, parece mais adequado falar em uma crise histórica de certos modelos de masculinidade: sobretudo aqueles organizados em torno da autoridade unilateral, da contenção emocional, da agressividade, da dominação sexual e da superioridade masculina no espaço doméstico e público. Nesse sentido, não se trata de afirmar que “os homens” estão em crise como categoria homogênea, mas que determinados repertórios tradicionais de masculinidade perderam legitimidade moral, jurídica e institucional em sociedades que ampliaram as exigências de igualdade de gênero, reconhecimento e autorregulação emocional (CONNELL, 1995; CONNELL; MESSERSCHMIDT, 2005).
A popularidade contemporânea de influenciadores, cursos e comunidades digitais que prometem ensinar “como ser um homem de verdade” deve ser lida menos como prova direta de uma crise universal dos homens e mais como sintoma de uma demanda social por orientação identitária. A ascensão da chamada manosphere — conjunto de espaços digitais marcados por ressentimento antifeminista, discursos de restauração da virilidade e hostilidade às mulheres — tem sido tratada por organismos internacionais como fenômeno relevante para compreender a circulação de misoginia on-line e sua possível influência sobre atitudes e comportamentos fora da internet. A ONU Mulheres, por exemplo, descreve essas comunidades como redes digitais que podem impactar percepções sociais sobre gênero, igualdade e poder. (The United Nations Office at Geneva)
A questão central, portanto, não é simplesmente “o que é ser homem no século XXI?”, mas quais formas de masculinidade permanecem socialmente viáveis em um contexto no qual as antigas prerrogativas masculinas já não são aceitas como evidências naturais. A literatura sobre masculinidade hegemônica mostra que os modelos dominantes de masculinidade não são universais nem estáticos: eles variam historicamente, articulam-se a classe, raça, sexualidade e geração, e definem hierarquias não apenas entre homens e mulheres, mas também entre os próprios homens (CONNELL, 1995). Por isso, falar em masculinidade no singular é analiticamente limitado. O que existe são masculinidades plurais, algumas mais igualitárias e reflexivas, outras mais defensivas, violentas ou nostálgicas.
A comparação entre sociedades também reforça esse ponto. Países nórdicos como Islândia, Finlândia, Noruega e Suécia aparecem de modo recorrente entre os mais bem posicionados nos indicadores globais de paridade de gênero, mas isso não significa ausência completa de diferenças de gênero; significa, mais precisamente, maior institucionalização da igualdade no trabalho, na política, na educação e nas relações familiares. O Relatório Global de Desigualdade de Gênero de 2025 indica que a Islândia fechou mais de 90% de sua lacuna de gênero e lidera o índice há 16 edições; Finlândia, Noruega e Suécia permanecem entre os países mais bem colocados. Ainda assim, globalmente, a paridade plena permanece distante, estimada em 123 anos no ritmo atual. (World Economic Forum)
Esse dado é importante porque impede duas leituras simplistas. De um lado, desmonta a ideia de que igualdade de gênero seria uma anomalia cultural destrutiva; de outro, mostra que nem mesmo as sociedades mais igualitárias aboliram completamente tensões, desigualdades e conflitos simbólicos ligados ao gênero. A igualdade não elimina o problema da masculinidade; ela o desloca. Em sociedades mais igualitárias, a masculinidade deixa de poder se apoiar tão facilmente na autoridade sobre mulheres e crianças, sendo obrigada a se redefinir em torno de cooperação, corresponsabilidade doméstica, competência emocional, reciprocidade e reconhecimento.
No caso brasileiro, o argumento ganha força quando se observa que a violência de gênero não é um problema abstrato ou meramente moral. A Lei Maria da Penha define violência doméstica e familiar contra a mulher como ação ou omissão baseada no gênero que cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico, dano moral ou patrimonial. A legislação posterior também ampliou a gravidade jurídica do feminicídio: em 2015, ele foi incluído como qualificadora do homicídio e no rol dos crimes hediondos; em 2024, a Lei nº 14.994 tornou o feminicídio crime autônomo e agravou penas de crimes praticados contra mulheres por razões da condição do sexo feminino. (Planalto)
Entretanto, é necessário formular esse ponto com maior precisão: as leis não são simplesmente “fruto dos anseios sociais”, como se traduzissem de modo imediato e transparente a vontade coletiva. Elas resultam de disputas políticas, movimentos sociais, produção acadêmica, pressão institucional, mudanças culturais e reconhecimento jurídico de danos historicamente normalizados. A criminalização da violência contra a mulher não significa que a sociedade “ficou mais sensível” ou “menos tolerante ao masculino”; significa que práticas antes naturalizadas como prerrogativas privadas do homem — controle, ameaça, coerção, agressão e posse — passaram a ser reconhecidas como violações de direitos.
Os dados brasileiros tornam essa transição particularmente relevante. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 registrou 1.492 vítimas de feminicídio em 2024; entre elas, 70,5% tinham entre 18 e 44 anos, 64,3% foram mortas em casa, 8 em cada 10 foram mortas por companheiros ou ex-companheiros, e 97% foram assassinadas por homens. O mesmo material aponta 1.067.556 acionamentos ao 190 por casos de violência doméstica em 2024, isto é, aproximadamente dois chamados por minuto. Esses números sustentam empiricamente a tese de que certas formas de masculinidade baseadas em posse, controle e agressão permanecem socialmente ativas, embora sejam cada vez mais juridicamente repudiadas.
Ao mesmo tempo, a crise de masculinidade não deve ser analisada apenas pelo eixo da violência masculina contra mulheres. Há também indicadores de sofrimento masculino que precisam ser integrados ao argumento. Nos Estados Unidos, por exemplo, o CDC informa que, em 2023, a taxa de suicídio entre homens foi aproximadamente quatro vezes superior à das mulheres, e que homens representaram quase 80% das mortes por suicídio, embora constituam cerca de metade da população. (CDC) A literatura psicológica também indica que a adesão rígida a normas tradicionais de masculinidade — autossuficiência extrema, repressão emocional, dominação, aversão à vulnerabilidade — está associada a piores indicadores de saúde mental e menor busca por ajuda profissional (WONG et al., 2017). (APA)
Esse ponto é decisivo para evitar uma oposição simplista entre “homens agressores” e “mulheres vítimas”, ainda que a violência de gênero tenha clara assimetria. A masculinidade tradicional também produz custos para os próprios homens: maior exposição à violência letal, maior participação em conflitos físicos, maior resistência à procura por cuidado psicológico e maior vulnerabilidade a comportamentos de risco. No Brasil, o Anuário de Segurança Pública de 2025 mostra que 91,1% das vítimas de mortes violentas intencionais em 2024 eram homens; o mesmo documento indica que 94% da população privada de liberdade era masculina. Esses dados não anulam a dominação masculina, mas mostram que o modelo tradicional de masculinidade também se articula à produção de morte, encarceramento e autodestruição entre os próprios homens.
Há, contudo, elementos empíricos que relativizam a tese de uma “crise” generalizada. Pesquisas de opinião sugerem que a masculinidade não é percebida de forma uniformemente negativa. Em levantamento do Pew Research Center com 6.204 adultos nos Estados Unidos em 2024, apenas 25% afirmaram que homens “masculinos” são vistos de modo majoritariamente negativo, enquanto 43% disseram que são vistos de forma positiva. Além disso, 81% dos respondentes afirmaram que os avanços das mulheres na sociedade não ocorreram às custas dos homens. Isso contesta leituras segundo as quais haveria uma rejeição ampla da masculinidade em si ou uma competição inevitável entre igualdade feminina e dignidade masculina. (Pew Research Center)
O que parece estar em crise, portanto, não é a masculinidade como experiência identitária, mas uma gramática específica de masculinidade: aquela que associa ser homem a controlar mulheres, evitar vulnerabilidade, exercer autoridade pela força, desprezar atividades de cuidado e provar valor por domínio sexual ou econômico. A própria pesquisa do Pew mostra que maiorias consideram inaceitáveis comportamentos frequentemente associados à chamada masculinidade tóxica, como participar de conversas sexualmente objetificantes sobre mulheres, beber excessivamente ou “dar um soco” quando provocado. Ao mesmo tempo, muitos respondentes afirmam que homens cuidadosos, emocionalmente abertos, afetuosos ou serenos são pouco valorizados socialmente. (Pew Research Center)
A educação também revela que a transformação dos papéis de gênero não beneficia automaticamente todos os grupos de modo homogêneo. Relatório da OCDE de 2023 mostra que meninos adolescentes têm maior probabilidade do que meninas de não atingir níveis básicos de proficiência em leitura, matemática e ciências; o mesmo relatório ressalta que diferenças educacionais e profissionais entre homens e mulheres não decorrem de aptidões naturais fixas, mas de atitudes, expectativas, escolhas socialmente orientadas e normas culturais. (OECD) Assim, uma análise consistente precisa reconhecer simultaneamente desigualdades que prejudicam mulheres e vulnerabilidades específicas que afetam meninos e homens.
A versão mais forte do argumento seria, portanto, a seguinte: não vivemos uma crise da masculinidade enquanto tal, mas uma crise de legitimidade da masculinidade patriarcal. Modelos masculinos baseados em agressividade, autoridade unilateral, repressão emocional e objetificação da mulher tornaram-se menos compatíveis com sociedades que ampliaram expectativas de igualdade, consentimento, corresponsabilidade e proteção jurídica contra a violência. Essa transformação produz desorientação subjetiva em parte dos homens, sobretudo naqueles que foram socializados para compreender reconhecimento, desejo e respeito como efeitos naturais de sua posição masculina. O mercado de cursos, influenciadores e comunidades digitais antifeministas explora exatamente essa desorientação, oferecendo respostas simplificadas para problemas estruturais complexos.
A conclusão, contudo, não deve ser moralista. O problema não é “ser homem”, nem preservar traços culturalmente associados à masculinidade, como coragem, firmeza, proteção ou iniciativa. O problema é quando esses traços são organizados por uma lógica de dominação, impermeabilidade emocional e desprezo pela igualdade. Uma masculinidade viável no século XXI não precisa abdicar de força, desejo ou identidade; precisa desvinculá-los da violência, da posse e da hierarquia. Nesse sentido, a crise pode ser interpretada menos como decadência dos homens e mais como oportunidade histórica de reconstrução: a passagem de uma masculinidade defensiva, fundada no medo da perda de poder, para masculinidades mais maduras, relacionais e eticamente responsáveis.
Referências bibliográficas
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