Meritocracia e Desigualdade Educacional

Artigo publicado no Jornal Diário de Santa Maria no dia 07/04/2026

Marcio Medeiros

4/9/20263 min read

Estava assistindo a um vídeo sobre meritocracia e sobre as diferenças entre escolas públicas e privadas quando, em um dos comentários, um rapaz afirmou: “este vídeo deturpa a dimensão da meritocracia, pois meritocracia não é ganhar fácil, mas se esforçar para ganhar”. Considero importante levar esse tipo de argumento a sério, porque ele abre espaço para reflexões mais profundas sobre o tema.

Tomando a escola como parâmetro de análise e o ENEM como horizonte interpretativo, alguns pontos precisam ser considerados. Em primeiro lugar, mesmo um estudante oriundo da escola privada, se não estudar, dificilmente conseguirá ingressar em uma faculdade. Em outras palavras, há sempre uma parcela indispensável de esforço para que alguém alcance êxito na tentativa de obter uma vaga no ensino superior, sobretudo quando se trata de universidades federais, altamente concorridas.

Entretanto, quando se analisa o desempenho em sentido mais amplo, surge uma inflexão importante. Em geral, estudantes provenientes de escolas mais estruturadas — especialmente escolas privadas de qualidade e instituições federais — apresentam resultados superiores aos de alunos da rede pública regular. Em muitos casos, inclusive, observa-se que professores que atuam na escola privada também lecionam na escola pública, o que indica que a questão não se reduz, necessariamente, à competência do corpo docente. O problema envolve, antes, diferenças nas condições objetivas de ensino: políticas públicas distintas, turmas mais numerosas, menor acompanhamento individualizado de alunos com dificuldades, escassez de recursos e outras limitações estruturais que dificultam o desenvolvimento acadêmico de grande parte dos estudantes da escola pública.

Há, evidentemente, casos excepcionais. Em 2022, por exemplo, ganhou repercussão o caso de um estudante, filho de um porteiro e de uma professora, que obteve nota 980 na redação. Exemplos assim são relevantes justamente porque evidenciam outro fator decisivo: famílias mais estruturadas e com maior capital educacional tendem a favorecer trajetórias escolares de melhor desempenho. Isso não significa “facilitar” artificialmente a vida da criança, mas oferecer referências, mediações e orientações sobre o processo de aprendizagem. É relativamente comum, por exemplo, que filhos de professores encontrem em casa um ambiente mais propício para compreender como estudar, como organizar a rotina e como percorrer os caminhos institucionais da formação escolar. Quando esse contexto se combina com vontade e empenho pessoal, as chances de um bom desempenho aumentam consideravelmente.

É nesse ponto que reside uma das questões centrais da educação, muitas vezes ignorada por quem não possui experiência concreta no campo educacional: há crianças às quais o “mapa da aprendizagem” é apresentado, e há outras às quais esse mapa não é oferecido. Para aquelas que recebem esse direcionamento, os critérios de motivação e de perseverança operam em outro patamar, e o desenvolvimento depende, em larga medida, do empenho dedicado a seguir esse percurso. Já entre sujeitos em situação de vulnerabilidade, muitas vezes existe apenas uma percepção vaga de que a educação pode abrir caminhos, sem que lhes sejam dadas as condições concretas para compreender como trilhar esse percurso. Tentam avançar como podem, mas frequentemente com baixa eficiência, muitas lacunas e elevada frustração. Em contextos de exclusão social mais severa, a situação é ainda mais grave: em alguns casos, sequer há clareza de que exista um caminho de ascensão ou transformação por meio da educação, porque a realidade social em que vivem carece de exemplos concretos que tornem essa possibilidade visível.

Em suma, questionar a meritocracia não significa, de modo algum, minimizar o papel do esforço na construção da trajetória individual. Significa, antes, problematizar o contexto desigual no interior do qual esse esforço é exigido e investido. Mais do que isso, para que o esforço possa ser direcionado de modo consistente, é necessário que o indivíduo tenha alguma clareza acerca do caminho que está percorrendo e das possibilidades que esse caminho pode oferecer. Em muitos casos, porém, isso não está dado para inúmeros jovens em nossa sociedade, seja porque tal horizonte nunca lhes foi apresentado, seja porque múltiplas barreiras materiais, simbólicas e existenciais restringem severamente sua capacidade de vislumbrá-lo. O resultado disso pode ser observado na discrepância das pontuações no ENEM que, embora esteja longe de ser o marcador ideal, pode ser utilizado como um indicador concreto das realidades sociais desiguais em que os alunos estão inseridos.