O “treino” inverso da empatia no submundo digital

Artigo publicado no Diário de Santa Maria no dia 10/02/2026

Marcio Medeiros

2/11/20263 min read

Como escrevi na coluna anterior, publicada em 27/01, ao discutir a relação entre o insuficiente desenvolvimento da competência empática e a violência contra a mulher, o mesmo princípio interpretativo pode ser estendido a outras formas de brutalidade que atravessam o cotidiano. O caso do cachorro “Orelha”, em Florianópolis, é exemplar — e, ao mesmo tempo, mais complexo — porque nos obriga a considerar um fator adicional: determinados ecossistemas do submundo da internet, em especial comunidades fechadas que se organizam em plataformas como o Discord. Nos últimos anos, multiplicaram-se relatos e denúncias sobre grupos que estimulam, por meio de dinâmicas internas de competição e pertencimento, práticas de crueldade contra animais, automutilação e violência sexual, convertendo o sofrimento em espetáculo e a transgressão em critério de prestígio.

O funcionamento desses grupos costuma obedecer a uma lógica de aliciamento: jovens são atraídos por adultos — ou por intermediários já cooptados pela cultura interna — para participar de “jogos” ou “desafios” que, sob a aparência de brincadeira, operam como dispositivos de captura e coerção. As tarefas podem incluir o envio de fotos íntimas, agressões a animais e a utilização de objetos para provocar ferimentos em si mesmo. A promessa simbólica que sustenta o engajamento é sempre semelhante: ganhar pontos, demonstrar coragem, provar força, ser reconhecido. Em outras palavras, instrumentaliza-se o senso de pertencimento — elemento particularmente sensível na adolescência — para induzir e manipular sujeitos em formação a praticarem atos que, fora daquela bolha, reconheceriam como moralmente repulsivos. A perversidade está menos no improviso do horror e mais na engenharia social que o torna gradualmente “normal”, incorporando-o à gramática do grupo como se fosse uma forma de mérito.

Quando algo comprometedor é realizado, inicia-se, com frequência, a etapa decisiva do controle: a ameaça. Aquilo que foi registrado e enviado ao grupo passa a funcionar como instrumento de chantagem, pois pode ser divulgado para familiares, colegas ou para a rede em geral, com consequências devastadoras. O medo da exposição, somado à vergonha e à sensação de não haver saída, empurra o adolescente para uma escalada: exigem-se novos atos, mais graves, mais humilhantes, mais violentos. A progressão torna-se exponencial, não apenas pelo aumento do grau de agressão, mas pela intensificação do aprisionamento psíquico — e os prejuízos podem ser imensos, tanto no plano emocional quanto no social e no jurídico.

É nesse ponto que a questão da empatia retorna com força. Esses grupos não apenas se alimentam de uma empatia fragilizada; eles produzem ativamente um “treino” antiempático. Para sobreviver dentro dessa lógica — e para não se tornar alvo interno — o jovem precisa se dessensibilizar, rebaixar sua resposta afetiva ao sofrimento, aprender a tratar a dor como insumo de performance. Quanto mais bizarra e cruel é a ação, quanto mais “prova” é apresentada em vídeo ou imagem, maior a popularidade, mais “incrível” o participante se torna e mais pontos acumula. O mecanismo de recompensa social, aqui, não é detalhe: é o motor que reorganiza a percepção do outro, dissolvendo a alteridade em objeto e convertendo a violência em capital simbólico. Assim, condutas erráticas e extremas deixam de ser exceção e passam a ser moeda corrente — cenário no qual episódios como a agressão brutal sofrida por “Orelha” se tornam menos um desvio inexplicável e mais a consequência possível de um sistema de incentivos moralmente invertido.

Por isso, é insuficiente afirmar que a internet desumaniza apenas pelo distanciamento das relações presenciais, reduzindo a empatia pela diminuição do “treino social” cotidiano. Em certos nichos, a rede não apenas afasta: ela organiza, ensina, recompensa e disciplina a dessensibilização, induzindo a atos hediondos muitas vezes longe do olhar dos pais e responsáveis. Cuidar dos espaços digitais por onde adolescentes transitam, portanto, não é mera atitude de vigilância moralista nem simples estratégia de proteção técnica; é uma exigência de responsabilidade formativa. Trata-se de impedir que o jovem seja vitimizado por violências virtuais e, simultaneamente, de evitar que, capturado por dinâmicas de coerção e pertencimento, seja conduzido a participar de práticas abomináveis — como no caso dos meninos que assassinaram covardemente o cachorro “Orelha”.