Quando o Outro se Torna Coisa

Artigo publicado no Diário de Santa Maria dia 27/01/2026

Marcio Medeiros

1/28/20262 min read

A cada ano, multiplicam-se os relatos de violência contra a mulher, ao mesmo tempo em que as formas assumidas por essa violência tornam-se progressivamente mais chocantes em sua crueldade e perversidade. Com frequência, a explicação recai sobre a persistência de uma cultura misógina e machista, bem como sobre processos de objetificação do corpo feminino — fatores que, indubitavelmente, desempenham papel relevante nesse cenário. Contudo, a reflexão que proponho desloca-se para uma camada ainda mais profunda, anterior inclusive à própria objetificação: a erosão da empatia.

A empatia, entendida como a capacidade de reconhecer o sofrimento alheio e de apreender o outro como portador de dignidade, constitui um freio ético fundamental à prática da violência. Quando essa competência está minimamente preservada, a agressão deliberada ao outro torna-se moralmente inconcebível. A violência, portanto, não emerge de forma abrupta; ela é precedida por um processo gradual de rompimento dos vínculos empáticos, acompanhado pela desumanização do outro. Trata-se de uma transformação simbólica na qual o sujeito deixa de perceber sentimentos, intenções e limites alheios, passando a tratar o outro como coisa, objeto ou meio.

Nesse ponto, impõe-se uma compreensão mais rigorosa da empatia enquanto habilidade social. Falar em habilidade implica reconhecer um potencial que não é inato nem automático, mas que exige desenvolvimento, treino e reforço ao longo do tempo. A empatia se constrói por meio de experiências reiteradas de convivência, nas quais os indivíduos observam os efeitos de suas ações sobre os demais, aprendem com comportamentos bem-sucedidos ou fracassados e, gradualmente, internalizam a importância do reconhecimento do outro para a manutenção de um mínimo de harmonia social.

É justamente aqui que, a meu ver, reside o núcleo estrutural do problema. Onde, afinal, estamos treinando a empatia? No âmbito familiar, observa-se um esvaziamento crescente do tempo de convivência qualificada, resultado direto de rotinas extenuantes e de exigências cada vez mais intensas impostas pelo mercado de trabalho. A escola, embora seja um espaço privilegiado de socialização, costuma oferecer interações significativas em intervalos reduzidos e, não raramente, desprovidas de mediação sistemática voltada ao desenvolvimento socioemocional. Paralelamente, dispositivos digitais e tecnologias móveis capturam, dia após dia, o tempo que poderia ser destinado à interação face a face, empobrecendo as experiências relacionais.

Em síntese, estamos edificando uma sociedade na qual a empatia, enquanto competência social, torna-se progressivamente rara. Essa carência empática, quando combinada a discursos e representações que legitimam a desumanização do outro, cria um terreno fértil para a intensificação da violência. Assim, enfrentar apenas a dimensão ideológica associada ao feminicídio, embora necessário, revela-se profundamente insuficiente. A raiz do problema repousa, em grande medida, na negligência coletiva em relação à formação e ao cultivo das competências sociais fundamentais — entre elas, a empatia — que sustentam a vida em comum e funcionam como barreiras éticas contra a violência extrema.